sábado, 12 de setembro de 2020

A LINHA CIGANA – Dalila e Michel

A LINHA CIGANA – Dalila e Michel

Pela estrada vinham eles, metidos em carroças, com crianças e artefatos.
À frente vinham os irmãos Lucas e Nilo.
Seguiam orgulhosos, como se seus corpos fortes pudessem proteger toda nação cigana que vinha atrás.
Larissa seguia na primeira carroça segurando a pequena filha no colo, esta quietinha olhava com seus olhinhos negros e miúdos a mãe.
Em certo ponto da estrada avistaram uma mulher andando, seus trajes em farrapos e uma criança nos braços.
Ao avistar a caravana que se aproximava correu em direção a eles.
– Parem! Implorou ela. Confundida com o sangue que caia de seu corpo sobre a pequena criança.
– O que quer mulher do povo? Perguntou Nilo parando a caravana.
– Ajudem-me, por favor, peguem minha pequenina, cuidem dela, eu lhes imploro.
– Porque cuidaríamos de sua filha, que mãe é você? Perguntou o cigano.
A mulher abaixou a cabeça como se estivesse pensando, em seguida olhou para a cigana Larissa e disse:
– Porque respeitam suas mulheres e elas também têm filhos.
Nilo olhou para Lucas que vendo os olhos de Larissa com lágrimas disse:
– Temos nossas crianças.
– Mas minha pequena não tem ninguém.
Larissa entregou a filha para que outra cigana segurasse, desceu da carroça e se aproximou da mulher.
A princípio sentiu pena da mulher, estava machucada com cortes e arranhões, alguns cortes sangravam e sujavam a roupa da criança.
– O que houve contigo mulher do povo. Perguntou a cigana
– Caí em pecado. Meu marido não é o pai da pequenina, jurou nos matar, então eu fugi.
– Traíste então e agora o fardo é grande para carregá-lo.
– Estou arrependida, se eu voltar sem a criança, talvez ele me aceite.
– Poderá estar entregando a alma que a faria feliz.
– Eu a entrego para a liberdade.
Larissa perguntou:
– Filha de quem é esta pequena?
– Filha de um cigano que passou por estas bandas e me enfeitiçou.
– Deixou-se apaixonar? Tola…, Um cigano jamais assumiria uma casa, mulher e filha.
– Como se chama esta pequena? Perguntou Larissa acariciando os cabelos da criança.
– Chama-se Raquel.
Seu pai era Lívio e eu me chamo Clara.
Larissa olhou para Nilo e os olhos do marido aprovavam a decisão que ela iria tomar. Então disse:
– Raquel então será filha minha e de Nilo, irmã de Dalila e Milena, minhas filhas e irmã de Josias, meu filho.
Preste atenção mulher disse Lucas. Ela não será mais filha de Clara e Lívio. Será filha de Larissa e de meu amigo Nilo.
– Que seja disse a mulher entregando a criança e virando-se pronta para correr.
– Mulher. Chamou Larissa
A mulher parou e esperou.
– Não se entrega um filho a ninguém, não se dá filho para recuperar marido, homens existem em toda a parte, os filhos são parte de nós. Estão ligados para sempre. O que acontecerá a Raquel, sentirá a falta da mãe, ainda que esta já esteja morta.
Clara virou-se e correu pela estrada sem olhar para trás.
Nilo e Lucas desceram dos cavalos e se aproximaram da criança.
– Lucas, minha esposa acaba de pegar uma cria. O que ele diria? Perguntou Nilo.
– Diria que sim. Disse Lucas sorrindo. Eu autorizo
– Farias isto por teu amigo?
– Somos quase irmãos e a pequena faz parte de nossas crianças agora.
– Que assim seja. Então vamos seguir viagem?
 
Assumira tudo após a morte do pai, mas Nilo era seu grande conselheiro, tinham filhos da mesma idade e amavam-se como irmãos.
Lucas casou-se com Iratriz e tinha com ela quatro filhos homens e duas meninas.
Mauro que era o mais velho, em seguida vinham, Michel, Marcos e Marcelo. As pequenas Livi e Laureny.
Mauro contava com sete anos, Michel tinha dois anos, Marcos e Marcelo eram gêmeos, ainda bebes.
As meninas ainda pequenas contavam quatro anos e eram gêmeas também.
Ao avistarem uma clareira Lucas ordenou que parassem para passar a noite.
As carroças iam parando e as ciganas saindo com as crianças para esticarem as pernas, depois da longa jornada.
Os homens rapidamente iam montando as tendas.  
A noite caiu e já estavam todos instalados, a fogueira acesa, musica e dança para todos.
Nilo estava sentado junto à fogueira comendo um pedaço de carne, Lucas que estava tocando violino cansou, deixou a agitação e veio se sentar com o amigo e já chegou perguntando ao novo pai:
– Raquel se casará com quem Nilo? Para quem vamos prometê-la? Perguntou o chefe com ar preocupado.
– A ninguém respondeu Nilo, como se visse o destino da nova filha à sua frente.
– Todas as nossas mulheres tem o seu destino escrito desde o dia que nascem.
– Pensaremos no que fazer está bem? Disse Nilo.
– Então assim será companheiro.
Os anos passavam rapidamente.
Mauro andava a cavalo e chegou à tenda do pai.
– Pai grande..
– Sim, Mauro.
– Michel está na cidade, rodeado de mulheres, bêbado e delirante.
– O que espera que eu faça? Disse Lucas
– Cansei-me de atentá-lo as responsabilidades. Vive nestes locais, envolvendo-se com mulheres de homens alheios. Morrerá em uma emboscada.
– Não diga isso. Gritou Lucas
– Cansei-me de Michel e de ver o senhor defendê-lo e mamãe chorar. Cansei de ver a beleza de Dalila esperar por ele.
– O que está falando? Perguntou Lucas irado. Cobiça a mulher de teu irmão?
– Eu a amo, pai. Eu a faria feliz. Ele é um vagabundo que a de Ter o que merece.
Lucas levantou-se irado e esbofeteou o filho com força.
– Nunca mais fale comigo, volte para o teu canto com Íris e contente-se com o que tem.
O rapaz inconformado disse:
– Sou um homem correto, nunca o desrespeitei e me pune. Michel é aventureiro e irresponsável e o defende? Nunca lhe dei um desgosto.
– Acaba de me dar um, Michel é meu filho, é muito novo.
– É um nada. Gritou Mauro saindo nervoso.
Dalila deitada conversava com Raquel na tenda.
– Entendo agora Dalila porque meu pai nunca me prometeu a ninguém. Para não me ver pelos cantos a chorar como você.
– Se isto é amor, sofro sim disse ela.
– Não percebe que este amor a matará?
– Sei que sim, mas eu tenho certeza que Michel gosta de mim do jeito dele.
– É um aventureiro, não trabalha, não ajuda ninguém, nada faz.
– Dalila olhou para Raquel com lagrimas nos olhos, sabia que Michel era tudo isso que falavam, então disse:
– Sem que eu abra as cartas, sei do destino de Michel.
– É ao seu lado? Perguntou Raquel balançando os cabelos dourados.
– Sim. Para todo e sempre.
– Pegue as cartas Dalila, abra para ele.
– É tarde.
– Vamos abra, é a melhor de todas, nunca erra. Lê nossas mãos e não falha.
– É que nunca vi nada de ruim em nenhum de nós.
– Tem razão Dalila. É bom demais. Então não custa nada abrir.
– Está bem, você venceu.
A jovem cigana de cabelos negros e cacheados abriu o baralho para Michel e em poucas palavras disse:
– Michel terá muito tempo para ser aventureiro. Muito pouco tempo para mudar e pouquinho tempo para agir.
O tempo que for outro homem mudará o futuro do nosso povo, e as pessoas o respeitarão sem nunca saberem quem ele foi.
É com ele que fica o lugar.
É ele quem assume o lugar do Pai Grande Lucas, disse ela um pouco pálida.
– E Mauro?
– Não sei. Disse a cigana saindo da tenda e caminhando rumo a tenda de Lucas.
– Pai Grande
– Dalila, minha jóia, mãe dos meus netos, senhora das mãos, dona das cartas, entre, fique a vontade.
– A jovem cigana entrou na tenda e sentou-se sobre umas almofadas.
– Tens a resposta da pergunta que te fiz há alguns anos, quando era ainda uma pequenina?
– Não Pai, mas tenho algo a dizer.
– Então fale.
– É Michel vosso sucessor. Depois dele tudo acaba, embora eu o veja falando a multidões e sendo respeitado por todos.
– Dalila que estava com o baralho nas mãos, abriu as cartas e continuou:
– Virão a ele necessitados e sem esperança pedirem conselhos e ele contará nossa história, nossa saga, nossas paixões.
Lucas ouviu a tudo em silencio e com o coração apertado, levantou-se e andou pela tenda pensativo, por fim falou:
 Quer dizer que Mauro, meu filho a quem criei para tal, mais velho, mais responsável não tomará lugar algum?
– Michel sim, Mauro, não sei. Por isso Pai grande deve dizer algo a Michel.
– Adverti-lo?
– Não, apenas umas palavras. Entrarão em seus ouvidos, ele vai rir, mas na hora certa fluirão de vosso coração e farão a diferença.
Lucas sorriu.
– Amo Michel. É o filho que mais amo, não posso negar isto, mas sinto que ele precisa de tempo. Este tempo fará o seu destino. Quanto às palavras eu direi a ele.
– A cigana sorriu, levantou-se e o beijou. Virou-se para sair quando Lucas a chamou:
– Dalila, nunca abandone meu filho. Você é o pilar e ele só irá onde você estiver. Pressinto isso.
– Sei disso Pai Grande. Serei fiel a tua palavra e ao meu coração. Disse a jovem sorrindo.
Horas mais tarde o jovem cigano estava chegando e Dalila foi sorrindo ao seu encontro, ao ver o seu estado o sorriso sumiu.
– O que houve mulher? Você chorou? Perguntou embriagado, sabes que gosto de ti.
Mauro saiu da tenda ao ouvir as palavras altas de Michel e viu o seu estado de embriagues.
– Cheira a perfume barato disse Dalila.
– Mulheres disse ele rindo, mas nenhuma igual a ti.
– Pare com isso gritou Mauro saindo da tenda e vindo para cima do irmão.
– Que quer? Perguntou Michel sorrindo.
– Mauro foi para cima e o empurrou, Michel caiu.
– Pare por favor, não faça isso gritava Dalila tentando segurar Mauro.
Mauro desviou de Dalila e passou a chutar o irmão que estava caído.
 Pare. Gritava Dalila. Pai Grande chamou.
Lucas saiu da carroça e puxou o filho pelo braço.
– Olhe o estado dele. Disse a cigana. Pare Mauro
– Ele a faz sofrer, gritava Mauro empurrando o pai e agredindo o irmão.
Íris saiu à porta e alguns ciganos vieram separá-los.
– Não a merece. Gritava Mauro. Você vai morrer logo.
Irado Lucas segurou Mauro e disse:
– Maldito, que volte contra ti o que pragueja para vosso irmão.
Mauro olhou o pai com profunda mágoa.
– Michel… Todos o protegem.
Íris se aproximou e pegou nas mãos do marido e o levou para a tenda.
Dalila foi ao socorro do jovem que sangrava.
– Não o limpe minha filha. Levem-no a minha tenda. Rose cuide dele pediu a uma velha cigana e vós Dalila vais dormir filha.
Pela manhã Michel acordou com a cabeça doendo, ao abrir os olhos deu-se com a figura de Lucas, seu pai.
– Pai. Disse o jovem
– Divertiu-se ontem ? perguntou sério o pai.
– Desculpe pai. Eu…
– Não foi o que perguntei, perguntei se divertiu-se ontem
Michel olhou para o pai envergonhado e respondeu:
– Sim muito.
– Está certo. Disse Lucas se levantando
– Onde vai pai? Porque perguntou? Não dirá nada.
– Quer me ouvir? Estou admirado.
– Sim pai, eu quero ouvir.
– Não direi nada. Nunca.
– Volte assim, quantas vezes quiser, deite-se com quantas quiser e divirta-se o tempo que quiser.
– É isso. Só isso.
– Mais uma, primeira e ultima vez, à anos que age assim e nada digo e a anos continua a fazer.
– Diga alguma coisa pai, o desprezo dói.
– Age assim para que eu o recrimine, mas não, não farei isto. No entanto lhe darei um conselho.
– Fale pai, estou ouvindo.
– A vida é curta. Curta demais e não somos eternos, ou aprendemos por bem, ou a vida nos ensina a sua maneira.
– Michel riu e disse:
– Sou jovem pai. Tenho 18 anos, falas como se eu fosse morrer.
– Estou indo para o trabalho Michel, durma bem para estar pronto para mais uma noite de bebida, mulher e diversão. Disse o pai sorrindo.
Michel não entendeu, mas sorriu.
– Quase me esqueço, tenho uma palavra a dizer em meio a isto tudo.
– E qual é pai?
– Dalila. Disse Lucas se retirando.
Michel ficou pensativo e adormeceu.
Dalila caminhava pelas margens do rio quando Marcelo e Marcos se aproximaram.
– O que querem? Ler as cartas, ler a mão?
A mão disse Marcelo.
A jovem cigana procurou uma pedra e se sentou, os jovens fizeram o mesmo e Marcelo estendeu as mãos para Dalila.
– Marcelo será o apoio ao chefe e Marcos está contigo nesta caminhada. Amam seu irmão Michel, não se casarão, não terão filhos, terão muito amor.
O jovem cigano retirou a mão rindo, meio sem jeito.
– E a minha? perguntou Marcos
– Ler a mão de Marcelo é ler a tua mão Marcos, disse Dalila sorrindo.
– Não quero mesmo casar. Disse Marcelo. Não que eu não ame Milena.
Dalila parou de sorrir e disse:
– Não se casará com minha irmã e você Marcos, livre como Raquel, também não o fará.
– E Tu Dalila?
– Estou casada a tempos.
– Cortará os pulsos diante de todos?
Dalila empalideceu e disse:
– Cortarei na hora do adeus. Não gosto de ler meu futuro.
– E porque? Perguntou Marcos.
– Porque tenho medo de não lutar, se eu souber a verdade.
– Mas, Dalila, todos que lê a mão ouvem o que querem ouvir.
– Eu sei, graças a Santa Sara.
– Os jovens se levantaram e Marcelo perguntou:
– Vais ficar Dalila.
– Sim, mais um pouco.
– Assim que os ciganos se afastaram Mauro aproximou-se
– Como vai Dali?
– Estou bem.
– Triste por ontem.?
– Não.
– Vim lhe pedir que vá a tenda e abra as cartas para mim.
– Nunca quis. Porque agora.
– Eu quero. Pediu ele
– Está bem, se você quer, você terá.
Os dois caminharam juntos de volta ao acampamento e Íris os viu passar, foi até Michel que subia no cavalo e disse:
– Veja. Estamos ficando para trás.
– Acha isto?
– Sim amigo, meu marido quer Dalila, e ela encontrará com ele o que não tem contigo.
Michel aproximou-se dos dois e olhou nos olhos de Dalila, não disse nada, açoitou o cavalo e quase atropelou o irmão.
Todos ficaram parados vendo o cigano se afastar a galope, ninguém disse nada.
Entraram na tenda e a jovem abriu as cartas.
-Cartas de conflito, misturadas a situações confusas.
As cartas eram tristes.
– O que houve? Perguntou Mauro
– As cartas recusam-se a dizer-lhe o que voce quer saber.
– Recusam? Até as cartas me recusam.
A cigana tentava manter a calma.
– Tente de novo.
– Não. Disse ela, não as desafie.
– Tem algo a me esconder Dali?
– Claro que não, só a vida pode conduzir-lhe.
– Então veja a minha mão. pediu sorrindo.
Ao ver a mão do cigano, a jovem empalideceu e tentou se controlar.
– O que está vendo?
– Bem, o que eu vejo é que não terá herdeiros…, Íris não vai querer.
– E o que mais? Fale Dalila.
– Perdoe-me, mas não sei, levantou-se e saiu
Dalila deixou a tenda e saiu correndo, lagrimas corriam de seus olhos. Uma mão sem destino, cartas sem caminho.
Estava arrasada, se afastou do acampamento e chorou sentada à beira do rio e já era noite quando retornou.
– Filha, chamou Larissa
– Sim mãe.
– Soube que Mauro saiu sem entender. O que houve filha? Lê as mãos como ninguém.
– Deus castigou-me
– Castigou?
– Sim mãe, por prever o futuro
– O que viu? Eu a ensinei e depois de ti percebi que o destino estava em tuas mãos, minha filha.
– Mauro não tem destino, nem caminhos mãe.
– Filha viu a morte, e isso?
– Sim….. Oh! Meu Deus.
– Seu nervosismo fez com que ele percebesse.
– Eu sei, recuso-me a ler qualquer coisa novamente
– Não desespere-se minha filha.
– E agora mãe?
– Tenha calma
– Nunca mais lerei cartas ou mãos. Nunca mais
– É o seu dom minha menina, não o futuro, mas os conselhos que pode dar.
– Vi o que nunca devia ver mãe.
Larissa a abraçou enquanto a cigana chorava.
– Acabou mãe…. não quero ler nunca mais em vida.
Michel chegou tarde ao acampamento e desta vez trouxe uma jovem, beijaram-se e foram para a tenda dele.
– E então cigano?
– Dolores és importante e linda.
– Meu marido não me diz isso.
– È casada?
– Sim, mas não importa.
– Corremos um grande perigo aqui, devias ter me contado.
– Vale a pena arriscar disse ela o beijando.
Já era madrugada quando o acampamento foi despertado por homens que chegavam gritando.
– Maldito cigano
Dolores rapidamente colocou suas roupas e Michel saiu da tenda para ver o que estava acontecendo.
– Onde está ela? Gritava o homem
Os ciganos, agora acordados foram se aproximando daquele grupo, Dalila tambem saiu de sua tenda.
– O homem continuava a gritar
– Onde está ela? Sei que está ai com você. A traidora
– Não há mulher alguma disse o Pai Grande, entre e veja com seus proprios olhos.
– Deixe-o entrar filho
– Não gritou Michel
– Dalila olhou para o cigano e algumas lagrimas cairam.
 Se ela sair …. Dizia o homem
– Saía Dolores pediu o cigano
Dolores saiu em trajes íntimos, o marido a pegou pelo braço.
– Vais me pagar ingrata.
Todos os ciganos olhavam boquiabertos a cena
– A culpa foi minha. Disse Michel
– E você cigano, não te mato agora porque tens teu pai e eu o respeito, mas aguarde terás o que é seu. Disse o homem revoltado saindo com a mulher
Michel veio na direção de Dalila
– Dalila eu …..
– A jovem cigana deu as costas e se afastou, o pai dela se aproximou e disse:
– Não haverá mais casamento, cansei disto. Cansei.
Mauro olhava o irmão com ódio nos olhos, todos os ciganos se retiraram e os deixaram ali.
Lucas ia saindo e ele chamou
– Meu pai
– Fale filho
– Me perdoe
– Não direi nada meu filho. Nunca
Mauro acordou pela manhã e procurou Dalila. A jovem o recebeu com os olhos inchados de tanto chorar.
– O que precisar farei por ti
– Obrigado Mauro, estou bem. Perdoe-me por não Ter visto o teu destino.
– Tudo bem, mas Michel….
– Amo Michel, mas não sou um anjo, estou triste com ele, magoada.
– És linda e merece ser feliz.
– E Íris também disse a jovem se referindo a mulher dele.
– Amo você Dalila
– Amo Michel.
– É impossível, meus irmãos o amam mais que a mim, meu pai, você todos o amam e ele é tão errado.
– Mauro…. Além do que sentimos por ele, você sente ódio de Michel e quer vingar-se por algum motivo.
– Não
– Sim. Disse ela. Sabe de algo e recusa-se a me dizer.
– Esta bem Dalila, não quero mais esconder nada de você. Antes do meu casamento com Íris soube que ele já a tinha amado.
A jovem empalideceu
– Ele e Íris juntos.
– Sim, teve até minha mulher.
– Foi ela quem quis disse Dalila e você calou-se?
– Sim. Não quero matar a meu próprio irmão.
– Sábia decisão, Mauro, mas o odeia e o quer morto.
– Não Dalila. Gosto de Michel, mas não me sinto bem aqui. Eu pararia em qualquer cidade e viveria bem.
– Então pelo que entendi, não gosta de fazer parte do povo cigano?
Não
– E não fará um dia. Disse ela
Mauro pareceu não Ter ouvido as palavras da cigana e perguntou:
– E o casamento com meu irmão
– Não haverá casamento.
– Porque não lê o próprio destino? Não é porque tem medo?
– Não, não tenho medo, só não consigo vê-lo. As cartas se recusam e ao ver minha mão esqueço como se lê.
E não lerei futuro algum, nunca mais.
Mauro se levantou e abraçou a cigana.
– Tudo a de melhorar querida.
Era noite e pela primeira vez Michel estava no acampamento trabalhando em um tacho de cobre.
– Não vai sair Michel? Perguntou Raquel.
– Não. E Dalila?
– Não o quer mais. Passou dos limites amigo.
– Eu sei, mas ainda quero me casar com ela.
– Terá que provar que mudou a Nilo a ao povo.
– Não quero perdê-la Raquel
– Perdeu uma parte, embora ela o ame, existe uma coisa que nunca mais vai lhe entregar.
– E o que é?
– A confiança Michel, a confiança. É por isso que sou livre, danço, canto, vou às festas da cidade e todos me admiram, mas não me entrego a ninguém. Disse Raquel. E mais, se era isso que queria, não devia ter arrastado Dalila contigo.
– Tentarei mudar e Dalila me perdoará.
Não foi uma vez Michel, são quase cinco anos de traição, bebedeira e diversão. Precisará de mais de uma vida para que ela o perdoe.
– Raquel… Amo Dalila
– Talvez, disse a jovem saindo.
Os dias passavam tranqüilos no acampamento cigano, todos com seus afazeres, Michel não deixou o acampamento, procurava ser útil, estava mudado, poucos acreditavam na mudança.
Mauro voltava da cidade a cavalo, era ele quem negociava os artefatos que os ciganos faziam, de repente seu cavalo deu um pulo e ele distraído caiu.
Bateu a cabeça violentamente no chão, seus olhos escureceram por alguns segundos, quando a visão voltou estava frente a frente com ela.
Era uma cobra imensa que não lhe deu tempo para nada, tentou se levantar, mas a picada na perna não pode ser evitada.
Michel voltava do rio, havia ido buscar água, avistou o cavalo do irmão em disparada em direção ao acampamento, correu para a trilha que o cavalo vinha e avistou o irmão.
Correu em sua direção e ainda viu a cobra se afastando.
Ajoelhou-se junto ao irmão, levantou sua cabeça e perguntou:
– O que Houve Mauro, ela o picou?
– Estou morrendo Michel. Era muito venenosa.
Michel não sabia o que fazer tentou ajudá-lo a se levantar, mas Mauro não conseguia ficar de pé, o veneno estava agindo e minando suas forças.
Com muito esforço pegou o irmão ferido nos braços e rumou para o acampamento.
O corpo semi desfalecido de Mauro era pesado, Michel tirava forças não sabia de onde, seus pés já não tinham força para obedecer ao coração, o pensamento era um só. Precisava chegar ao acampamento e salvar o irmão.
A distancia do acampamento parecia não Ter fim, Michel chorava, queria fazer mais, mas o corpo cansado pelo esforço teimava em não obedecer, seus olhos foram escurecendo e Michel caiu com o irmão nos braços.
Lucas estava no acampamento e viu quando o cavalo de Mauro chegou em disparada. Alguma coisa havia acontecido com seu filho, rapidamente juntou alguns ciganos e cavalos e foram em busca de Mauro.
Não precisaram procurar muito, a uma centena de metros avistaram os dois irmãos caídos. Michel quase conseguira.
Mauro estava desfalecido e Michel estava reagindo Lucas e os ciganos ajudavam os irmãos.
– Uma cobra pai
– Vamos agir, gritou Lucas para os homens.
Mauro foi colocado em um cavalo e foram para o acampamento, a tentativa de tirar o veneno foi infrutífera, já fazia parte do sangue do cigano.
O cigano segurou no braço do pai e disse quase sussurrando:
– Amo-te meu pai
– Sensibilizado e abalado com medo de perder o filho Lucas chorou.
– Sempre o amei filho. Sempre.
– Os ciganos se aproximaram e Michel segurou nas mãos do irmão.
– Perdoe-me Mauro por Íris, por tudo, eu era um menino.
– Mauro ameaçou um sorriso e disse:
– Eu teria lhe roubado Dalila, se ela quisesse, Somos homens. Disse com dificuldade.
– Dalila aproximou-se afastou alguns ciganos e chegou até onde eles estavam.
Mauro avistou a cigana e disse:
– Dalila, você conhece o destino. Não deixe de ajudar as pessoas.
A cigana entre lágrimas fez que sim com a cabeça.
Mauro fechou os olhos e morreu nos braços de Michel.
A nação cigana sentiu a perda de seu companheiro, os irmãos choravam e Michel abraçado ao corpo sem vida do irmão também chorava.
Lucas abraçou os filhos e chorou como nunca.
Michel chorava e dizia ao pai:
– Se eu soubesse, se tivesse aprendido a ser cigano eu o teria socorrido a tempo.
– Não Michel, ele ia morrer disse Dalila. estava escrito e o golpe do destino foi uma cobra, não o salvaríamos.
 Dalila abraçada à mãe chorava e Íris veio ao seu encontro.
– Seu homem está vivo, foi o meu que morreu.
A jovem cigana sentiu o sangue ferver e respondeu:
– Traidora, amiga maldita, Judas do povo, não a quero perto de mim.
– Eu e Michel fizemos o que queríamos, Michel e tantos outros que Mauro fechou os olhos. Anjinho perdoe-me disse Íris rindo.
Raquel surgiu na sua frente
– Nunca pise no chão onde estivermos, Eu e Dalila não teremos compaixão contigo.
– És livre Raquel
– Agora não mais. Ficarei com Dalila
– Então eu que sou livre agora.
– Maldita gritou Dalila indo para cima de Íris.
Raquel as separou e na manhã seguinte, Íris passou a evitá-las.
Dalila andava apressada pelo acampamento quando avistou os dois irmãos de Michel.
-Aonde vão?
-Estamos indo buscar mantimentos na cidade, queres ir?
– Não, irei dançar esta noite.
A noite era linda, sobre um tablado Dalila bailava com Raquel e o povo jogava ouro para as jovens.
Quando a jovem desceu Michel veio ao seu encontro.
– Dalila, preciso de ajuda, minhas irmãs se foram.
– Se foram? Como?
– Abandonaram o acampamento e fugiram, minha mãe chora desesperada.
– Estou indo, disse Raquel e voltaram juntos para o acampamento.
Ao chegarem foram a tenda da mãe.
– Partiram chorava Iratriz, minhas filhas, partiram.
– Que horror, quer dizer que fugiram?
– Sim, elas não se consideravam ciganas, não eram daqui.
– Vou achá-las mãe. Disse Marcelo
– E você Dalila, o que viu nas cartas?
– Nada
– Não tiras mais cartas? Perguntou Marcelo
– Não, desde que vi a morte de Mauro, disse ela.
 
Alguém por favor me ajude, pedia Iratriz.
Dalila saiu, entrou em sua tenda e era sua mãe que tirava as cartas.
– O que faz mãe?
– Diga a Iratriz que elas encontraram o amor e se foram. Estão bem, onde não sei.
– E você minha filha, negas ajuda ao teu povo.
– Não nego
– Como não nega, se recusa a atender o povo na cidade, nosso alimento falta e de onde virá o ouro para comermos.
– Temos outras fontes.
– Dalila, não deves cobrar de tua família, mas você deve cobrar ao doar algo as pessoas. Precisamos do ouro deles para viver, para comer e de sua ajuda aqui para novos conselhos.
A jovem cigana ouviu a mãe em silencio e nada disse.

Michel mudara, era um verdadeiro chefe, preocupado com o bem estar de todos.
Suas farras e diversões se acabaram, tudo se fora.
Percebia que além de Dolores, a sua prometida sabia de alga mais além, Dalila havia mudado, o tratava com frieza, muito pouco conversavam.
Ao ver a cigana passando chamou-a e ela veio ao seu encontro.
– Dalila, podemos conversar?
– Diga. Disse ela
– Mudei por você, amo meu povo, hoje sou outro homem, luto, trabalho e ainda assim odeia-me.
– Amo-te, mas não confio em vós. Íris disse ela. Mulher de teu irmão, minha amiga antes de ti. Traidores é o que são.
– Não me perdoa?
– Se um dia eu perdoar, perdoarei a ti que és homem e mudou. Íris nunca. Ela é ruim. Recuso-me a estar com ela onde for, ainda que passe anos.
Larissa saiu à porta da tenda e chamou a filha Raquel.
A jovem cigana entrou na tenda
– Sim mãe. Ajude-me a tomar uma decisão.
– Diga… Milena e o irmão de Michel não se casarão.
– Não, Porque?
– Ele e ela não se amam, mal se olham. O que poderia eu fazer?
– Pergunte a ela mãe. Pergunte a sua filha.
– Ela vai partir com Isaís, querem se casar com outros ciganos de uma aldeia amiga, não sei o que fazer.
– Autorize mãe.
– Somos poucos agora, poucos jovens, Raquel, Dalila, Íris, Marcos, Marcelo e eu sem filhos. O que deixaremos para trás? Quem cuidará de nosso nome, quem perpetuará nossa raça?
– As pessoas que aqui estão não querem se casar e não são prometidas. Íris é viuva, Raquel livre, as ciganas de seus irmãos se foram e eles aceitaram. Este não é um povo cigano. Disse Iratriz
– Sim é mãe. Propomos a felicidade e não prometemos uns aos outros. Os poucos que aqui estão querem continuar a lutar, a trabalhar, a dançar, ler a sorte e ensinar tradições.
– Temos mais jovens aqui, eles se casarão e procriarão.
– Não somos animais, se existir amor sim, se não….Não.
– Que se casem, portanto, ciganas e ciganos e a tradição ficará. Disse Iratriz.
Certa noite estavam todos em volta da fogueira e Nilo se aproximou de Michel e Dalila.
– Como vai Nilo, posso ajudar em alguma coisa.
– Minha filha é a tua prometida, se quiserem autorizo tal casamento.
– Dalila olhou para o pai surpresa e Michel disse:
– Eu casaria agora mesmo.
– E você, aceita filha?
– Sim. Disse a jovem.
Os preparativos estavam prontos e na festa do casamento viriam outros ciganos.
Talvez o reinado de Michel acabasse, pois pregara o amor, mas estaria vivo com os ciganos e ciganas deste sangue misturando-se a outros.
Dalila esperava a cerimonia
Estava feliz. Casaria-se com Michel, mas ainda não confiava no cigano.
As horas se passavam, a noite caía e Michel não chegava, nervoso Nilo disse:
– Ele desistiu, depois de parecer tão bom chefe, rendeu-se a diversão.
– Não, acalme-se Nilo, pediu Marcos.
– Dalila esperava linda em sua tenda, resolveu fazer alguma coisa,Chamou Marcelo e disse:
– Vamos procurá-lo.
Marcelo prontamente atendeu e saíram à procura de Michel, não precisaram procurar muito, perto do local onde Mauro havia sido atacado encontraram Michel caído.
Estava de bruços e Dalila ajudou o irmão a virá-lo e só aí viram o punhal enterrado em seu peito.
 
 
 A jovem cigana segurou sua cabeça no colo, a respiração era muito fraca, havia perdido muito sangue.
Michel o que houve? Perguntou o irmão
O marido daquela mulher
Michel agüente meu amor.
– Ele disse que destruiria o acampamento, e eu implorei que acabasse comigo, mas deixasse meu povo em paz. Perdoe-me Dalila, eu juro que queria me casar com você, disse cada vez mais fraco.
– Marcelo tirou o punhal do irmão e pediu:
– Agüente.
– Não, disse o cigano ferido. Corte o pulso de Dalila. Corte o meu, junte nosso sangue.
– Não vou fazer isto irmão.
– Faça é meu último pedido
– Dalila entre lágrimas pegou o punhal e cortou seu pulso, entregou o punhal a Marcelo e ele fez um pequeno corte no irmão e uniu Dalila e Michel pelo sangue.
– Nossa nação se faz agora e só começa na próxima, mas juntos nós vamos tentar perdoar.
– Michel fechou os olhos e partiu rumo a eternidade, Dalila caiu em prantos.
Marcelo jurou vingar a morte do irmão.
O funeral do chefe cigano foi triste, todos que vieram para participar da festa de casamento ficaram para o enterro.
Além da tristeza natural pela perda do líder, os ciganos daquela aldeia sentiam que perdiam algo mais, a continuidade.
Nos dias que se seguiram Dalila adoeceu, muitos ciganos partiram com as outras tribos, algumas ciganas se casaram e seguiram seus maridos.
– Íris não partiu, disse Raquel ao ver a jovem Dalila adoentada.
– E porque ela não foi com os outros perguntou Dalila.
– Disse que era povo de seu povo e que morreria com eles.
– Espero que ela encontre a paz, eu a perdoo por tudo.
Foi em uma fria manhã, treze dias após a morte de Michel que Dalila com uma febre fortíssima deixou a terra.
Mais uma tristeza para aquele povo sofrido, seus pais choraram e os ciganos que aprenderam a admirar Dalila também.
Os anos passaram rápidos, os velhos morreram, os jovens ficaram. Marcos e Marcelo foram mortos ao tentar vingar a morte do irmão.
O acampamento cigano se desfez, ficaram apenas Raquel e Íris.
Raquel continuava a freqüentar a cidade e conheceu um homem, parecia ser uma boa pessoa, Raquel não o amava, mas precisava de segurança.
Depois de um ano Raquel também partiu ao lado deste homem que se dizia apaixonado por ela.
Pobre Raquel morreu nas mãos daquele que lhe jurara amor eterno.
Íris ficou na solidão, morava sozinha onde antes fora o acampamento cigano e certo dia recebeu visitas.
Eram as irmãs de Michel, estavam bem casadas com homens do povo que as amavam.
Depois dos abraços elas perguntaram:
– O que houve Íris, onde está o seu povo?
– Está aqui. Eu sou o povo cigano. Há anos o acampamento desapareceu, eu ficarei aqui até chegar a minha hora, e voltarei junto deles. Acreditem.
EPÍLOGO
A chance de mesmo no além continuarem a ensinar é real.
E antes que Deus em sua infinita sabedoria conceda-lhes a chance de terem suas próprias vidas para amarem, ensinarem e perdoarem, eles buscam famílias e amigos e vêem a terra para ajudar.
São imperfeitos, mas conhecedores da vida.
A chance virá e serão conhecidos, pois viveram para isto.
Por enquanto vivem no além vida e são conhecidos apenas como:
A LINHA CIGANA
Patricia Cavazzana da Silva pelo espírito Isabel

UMA HISTÓRIA CIGANA

UMA HISTÓRIA CIGANA

Todos sentados em volta da grande fogueira, hoje a musica serve como fundo, o pai grande conta uma de suas historias, as crianças adoram e é assim que elas aprendem os costumes ciganos.
Desta vez todo o acampamento está atento para ouvir o que ele vai contar, é a sua historia, como ele chegou ali e como Deus escreve certo por linhas tortas.
O velho cigano pigarreou e começou a falar:
– Quando completei 14 anos consegui finalmente dar um rumo a minha vida.
Vida é um modo carinhoso de encarar o que eu passei, muito sofrimento, muita injustiça.
Não conheci meus pais, vivia em uma casa muito antiga e que havia se transformado em uma espécie de orfanato, ali muitas crianças que eram abandonadas a própria sorte encontravam um lar, muitas haviam perdidos seus pais na guerra, mas este não era o meu caso.
A grande verdade é que aquele lugar mais parecia uma prisão, eu por exemplo passava fome, era maltratado pelas freiras que dirigiam aquele lugar que eles chamavam de instituição.
Eu não era o único a sofrer, todos sofriam, por nada apanhávamos, castigos diários e por nada ficávamos sem jantar.
As religiosas comiam do bom e do melhor, na mesa delas muita fartura, carnes, pães, frutas e nós as crianças disputávamos as sobras com os ratos e com as crianças mais velhas.
Nem todas conseguiam sobreviver aos maus tratos, a falta de higiene, a fome aos poucos nos derrotava. Muitas crianças ficavam pelo caminho.
– Ficavam pelo caminho? Perguntou uma criança
– Sim. Meu filho, morriam.
– Para as freiras, era a vontade de Deus, enterravam o enjeitado ( era assim que ela nos chamava ) e logo era esquecido por todos.
Crianças morriam, crianças chegavam. Era uma roda vida onde os mais fortes conseguiam se manter vivos..
Apesar de todas as dificuldades aprendi a sobreviver, fazia de tudo para não ser notado, sempre que era possível roubava comida das freiras e escondia.
Novamente foi interrompido por outra criança:
– Vô você roubava?
Lavagem são os restos de comida que dão aos animais, esse era o nosso alimento. Cigano eu sou, mas naquela época eu ainda não sabia .e por fim me batiam porque eu era um dos menores, além de ruim a comida era pouca e só os mais fortes conseguiam pegar a sua parte, aos pequenos ficavam as sobras.
– Gente ruim né vô ?
O velho nem respondeu, concordava com a criança..
– Agora voltando a história, a primeira vez que eu os vi devia Ter uns 7 ou 8 anos de idade, estávamos todos amontoados no que eles chamavam de area de descanso, tomando sol e a caravana cigana passou na estrada. Todos se espremeram nas grades do portão para olhar aquele grupo de pessoas, alguns meninos xingaram e um deles olhou para mim e disse:
– Olha lá o teu povo, ladrãozinho, quem sabe tua mãe não está dormindo com um deles.
– Minha vontade era de matá-lo, mas a chance de eu morrer era maior, então abaixei a cabeça e me afastei chorando de raiva.
– A cada seis ou oito meses passava uma caravana cigana e sempre acontecia a mesma coisa, xingavam, ofendiam e quando o grupo cigano sumia na estrada as ofensas eram para mim.. Confesso que ser chamado de cigano uma ofensa maior que ser chamado filho de rameira, enjeitado, mas não teve jeito esse passou a ser o meu apelido e minha cruz. Mas até isso me deu forças para continuar lutando pela minha sobrevivência.
Com o passar do tempo me acostumei ao meu modo de vida, fazia de tudo para não ser notado, nem pelas freiras, nem pelos companheiros, não entrava mais na disputa pela comida, raras vezes me batiam e eu sabia suportar.
– E o senhor não tinha fome? Perguntou outra criança.
– Claro que tinha, mas eu suportava até a noite. Ficava sem o almoço, sem o jantar e quando todos iam dormir, saía da cama devagarinho e ia ao meu esconderijo pegar comida. Ah! Como eu comia, riu o velho cigano, e precisava comer mesmo, minha próxima refeição seria somente na próxima noite.
– E não faltava comida? Perguntou um jovem cigano.
– Não meu filho, nunca deixei aquele lugar sem comida, sempre que tinha oportunidade pegava tudo que servisse como alimento e escondia, afinal minha vida dependia do que eu conseguisse arranjar e esconder.
– Essa boa fase de minha vida durou alguns meses, mas todos estranhavam, como era possível não comer e não Ter fome, não ficar doente, não emagrecer, era um mistério que ninguém conseguia explicar. Agora além de cigano, ladrão me chamavam de bruxo.
– O senhor fazia feitiço? Perguntou uma menina
– O riso tomou conta do grupo
– Claro que não. Mas era realmente estranho e todos ficavam tentando adivinhar o que acontecia, aliás todos não, as religiosas nem sabiam quem comia ou deixava de comer, para elas pouco importava.
– Novamente a mesma criança fez o comentário:
– Gente ruim. Né vô?
– Muito ruim mesmo minha menina.
– Então certa noite, estava com muita fome e cometi meu primeiro e ultimo erro. Achando que todos já estavam dormindo levantei pé ante pé e fui ao meu esconderijo, não tive tempo nem de colocar um pedaço de pão na boca, fui descoberto.
– Um dos garotos descobriu pai grande?
– Se fosse apenas um com certeza eu teria conseguido controlar a situação, não era um, acho que todos esperavam esse dia.
– O que aconteceu vô?
– Primeiro comeram tudo que eu tinha guardado, e eu até entendo, também tinham fome, mas depois fui surrado por todos, os maiores me socavam e quando caí os menores me chutavam, fui jogado de um lado para o outro, eles me odiavam.
– Coitado do vô. As crianças estavam desoladas
– O cigano deu um sorriso triste e continuou, queria esquecer aquele dia mas precisava passar adiante a sua historia.
– Tanto barulho, tanta algazarra, meus gritos acabaram acordando as religiosas, chegaram furiosas atacando todo mundo e eu que achava que ia morrer nas mãos delas meu enganei, elas me salvaram. Mal conseguia ficar de pé, os dois olhos pareciam manchas escuras, não conseguia abri-los e sangue muito sangue saía de minha boca, perdi dois dentes.
– O silencio de todos parecia reviver o momento pelo qual o velho cigano havia passado.
– O velho abriu a boca e mostrou dois dentes de ouro e falou:
– Estes foram os dentes que perdi
– O que está acontecendo aqui? Gritou a religiosa
Vendo que todos iriam ser castigados começaram a contar o que haviam descoberto. Eu mal conseguia enxergar, mas os olhos da freira pareciam duas labaredas de fogo e ela apesar do meu estado ainda me deu uns tapas e arrastou-me dali gritando para que todos fossem dormir.
Fui jogado no porão, meus ferimentos sangravam, a dor era muita, mas a fome superava tudo, estava sem colocar nada na boca a mais de um dia.
– E como foi sua noite pai grande?
– Gostaria de esquecer mas não consigo, foi horrível meus amigos, aquele porão parecia uma tumba, um mal cheiro terrível, ratos e baratas habitavam aquele lugar, passei a noite sem dormir, o sono vinha e eu conseguia espantá-lo, se dormisse seria atacado pelos ratos e baratas que pareciam esperar que isso acontecesse. Foi difícil mas consegui suportar. Eu até achava que merecia o que havia recebido dos companheiros, mas das freiras não, tudo que eu fiz foi para continuar vivendo.
– Nossa vô e o senhor chorou?
– Chorei sim, afinal eu era uma criança como vocês, hoje não choro mais.
– Continue pai grande
– Está bem vou continuar, alguém pode me trazer uma caneca de vinho, a garganta está seca.
– Eu vou buscar. Disse uma cigana. Me espere antes de continuar
– Então vamos todos fazer uma parada, depois voltamos
– O grupo se desfez e cada um foi para sua tenda ou carroça, beber uma água, colocar os pequeninos para dormir, fazer suas necessidades.
– A caneca de vinho chegou e o velho cigano se recostou para bebê-la, ficou admirando o acampamento, como era bom ser cigano, ser livre, amante da natureza, abaixou a cabeça e agradeceu a Deus pela vida que hoje tinha, fechou os olhos e dormiu..
Aos poucos os ciganos foram retornando, estavam todos curiosos em saber a história do velho cigano.
– Vamos lá pai, estão todos aqui
Acordou sem saber onde estava, ao ver o grupo em sua volta sorriu.
Onde eu parei?
– O senhor estava preso no porão machucado e com fome. Disse uma ciganinha.
– Ah! É verdade. Continuando, aquela foi uma noite que parecia não Ter fim, mas consegui atravessá-la e pela manhã fiquei esperando que alguém viesse em meu socorro, me enganei. Passei a manhã inteira vendo o sol por uma pequena janela, ouvia as outras crianças falando, mas ninguém se lembrava de mim, parecia que eu nunca havia existido.
Uma ciganinha de uns 12 anos ouvia a historia e lágrimas desciam do seu rostinho, o velho tirou o lenço que tinha no pescoço e limpou aquelas lágrimas que teimavam em correr.
– Não chore ciganinha, nós somos fortes e abençoados, olha o vovô como está feliz hoje.
– Não pare pai, continue a historia pediu um cigano
– No inicio da tarde, acho que já era tarde, não tinha como saber por aquela janelinha entraram no porão, eram duas freiras, traziam um pedaço de pão e uma jarra com água, deixaram logo na entrada, antes de sair uma delas disse:
– Olha aí cigano, isso é seu e jogou algo que na pouca claridade nem vi o que era. Guarde com você, se morrer quem sabe por isso descobrem quem você é.
– Trancaram a porta e se foram.
– O que era vô? O que ela jogaram?
– Calma, eu chego lá. Primeiro precisava beber água e comer alguma coisa, então devorei aquele pedaço de pão duro e bebi muita água, mas deixei um pouco, não sabia quando elas iam voltar, ainda rasguei as mangas da minha camisa, molhei na água e limpei meus ferimentos, ainda doíam mas já dava para suportar, em seguida fui procurar o que a freira tinha jogado, tateei por onde achava que havia caído e por fim encontrei.
– O que era vô?
– O velho abriu a camisa e mostrou a corrente e o medalhão, não era ouro, não era uma jóia, não era bonito,era de cobre, mas tinha uma estrela de seis pontas, era chamada também de a estrela de Davi.
– Todas as crianças queriam ver o medalhão e o cigano tirou e deixou que as crianças admirassem e logo veio a pergunta:
– O que é essa estrela?
O velho cigano pacientemente explicou:
Simboliza proteção. É usado como talismã de proteção contra inimigos visíveis e invisíveis. Ela também é conhecida como Estrela Cigana e Estrela de Davi. A Estrela Cigana é o símbolo dos grandes chefes ciganos. Possui seis pontas, formando dois triângulos iguais, que indicam a igualdade entre o que está à cima e o que está a baixo. Representa sucesso e evolução interior.
Os mais velhos entenderam a explicação, as crianças nem tanto, mas elas eram novinhas tinham toda a vida pela frente para aprender os costumes e depois passa-los as próximas gerações.
– Naquela epoca eu não sabia nada disso, mas como a freira disse que era minha guardei, era meu tesouro, eu que não tinha nada agora tinha um tesouro, coloquei no pescoço e tentei dormir enquanto havia um pouco de claridade.
– Não sei quanto tempo dormi, já estava escuro quando acordei ou melhor fui acordado pelos insetos, levantei depressa batendo na roupa para espantá-los. Ninguém havia aparecido para saber se eu ainda vivia, meus olhos estavam pesados e tornei a dormir.
– Cigano
– Cigano
Alguém me chamava mas não dava para enxergar, senti raiva por ser chamado de cigano, mas era alguem que talvez viesse me ajudar, então gritei :
– Estou aqui
A voz que me chamava era linda, nunca tinha ouvido algo semelhante, parecia uma musica e aquele porão fétido e escuro de repente se iluminou, não consegui ver o seu rosto, meus olhos machucados, aquela luz brilhava tanto que parecia me cegar,forcei a vista e tudo que consegui ver foi um vulto de mulher e ela voltou a falar:
– Cigano porque você renega seu passado?
– Não entendi nada, mas fingi que havia entendido. Ela na hora viu que eu estava mentindo e explicou:
– Quando eu digo passado ciganinho quero dizer suas raízes, sua gente, seus antepassados.
– Que passado? Meu passado era hoje e meu futuro também, cheguei a pensar que estava morrendo.
A partir de hoje você deve se orgulhar do que é, deve respeito aos seus pais embora não os tenha conhecido, deve honrar toda a nação cigana.
– E o que eu sou senhora?
– Você é um cigano.
– Pronto, mais um me chamando de cigano e eu estava começando a gostar dela. Na verdade acho que ela lia meus pensamentos e ela voltou a falar:
– Não sente vontade de ser livre? Não se sente discriminado por todos? Não sofreu na própria pele a maldade dos homens e no seu caso também das mulheres.
Era verdade, tudo que ela falou acontecia e estava acontecendo comigo, puxa vida eu era cigano mesmo.
– Guarde o seu tesouro menino ele te levará ao teu povo.
– Como assim? Me levará ao meu povo?
– Tempo ao tempo cigano, você não está sozinho.
Então aquela luz foi se apagando aos poucos e voltou a escuridão.
– Quem era aquela moça vovô.
– Era um anjo. Minha menina, um anjo de luz.
– Não pare pai, continue queremos saber como termina sua historia!
– Era um anjo minha gente e ele passou a me ajudar, era um enviado de Deus, mas continuando, fiquei aquela noite acordado, sentia frio, meus dentes, aqueles que sobraram batiam um no outro, estava doente e sentia a vida me abandonando aos poucos, pela manhã abriram aquela porta e desta vez me carregaram para fora. A luz do dia me cegou, meus olhos machucados já estavam se acostumando com a escuridão, estava muito debilitado, não conseguia permanecer de pé e as crianças ficaram todas em volta curiosas para saber se eu conseguiria sobreviver, elas achavam que não, mas eu tinha certeza que sim, afinal eu era um cigano.
Desta vez todos bateram palmas, as crianças, os jovens, os adultos o orgulho de ser cigano era passado de geração a geração.
O velho cigano sorriu, seu povo era e continuaria sendo orgulhoso de suas raízes, dava para sentir na alegria das crianças. Por um momento ficou parado olhando a lua, mas foi chamado de volta para continuar sua narrativa.
– Pois é minha gente, dei um trabalho danado para aquelas religiosas, não sei porque queriam minha cura a qualquer preço e não mediam esforços para isso, fui tratado, alimentado, me deram roupas e aos poucos fui me recuperando, elas deviam estar esperando uma visita das autoridades, mas elas nunca apareceram. Agora o mais importante aconteceu, as outras crianças passaram a me respeitar, ninguém mais me agredia e deixaram de me chamar de cigano, só que eu queria ser chamado de cigano e foi o que fizeram, portanto ontem como hoje e sempre sou cigano.
– Todos somos pai. Disse um jovem.
– É verdade filho, mas voltando a historia visto que a hora já se faz, para mim tudo mudou, podia dizer que tinha uma nova vida, mas não estava feliz, o coração cigano falava mais alto, o desejo por liberdade aos poucos me agitava, devia haver alguma maneira de me libertar daquela prisão e foi o que fiz.
– O que o senhor fez vô?
– Eu fugi minha menina, como um passaro voei para a liberdade, não sabia o que iria encontrar, não conhecia nada fora daqueles portões, mas eu era cigano, nasci livre e livre ia permanecer não importava as conseqüências. Sendo assim em certa noite pulei aqueles portões e peguei a estrada, aquela mesma que tantas vezes vira a caravana cigana passando, a ultima já fazia vários dias que havia passado então segui pelo mesmo caminho, quem sabe com um pouco de sorte eu os alcançaria.
– E o senhor os encontrou pai?
– Calma, eu chego lá. Caminhei ao lado daquela estrada por uma boa parte da noite, não sabia se estavam me procurando, deitei embaixo de uma arvore e dormi tendo o céu e as estrelas como companheiros, como era bom ser livre.
– Nada como viver com a natureza não é vô?
– Verdade minha menina, não tem ouro que pague esta nossa vida,
O velho cigano deu uma pausa, revivia aqueles momentos e foi um ciganinho quem o trouxe de volta a realidade.
Não para vô, a historia é boa.
– Está certo menino, vamos em frente. Naquela noite ela voltou, parecia mais linda tendo as estrelas e a lua refletindo em seus cabelos, o meu anjo voltou.
– Cigano
– Estou aqui senhora.
– Como você se sente meu filho?
– cansado, com fome com sede, mas feliz como nunca senhora. Obrigado por abrir meus olhos e me guiar no meu destino.
– Seu destino ainda está distante, mas o mais importante é que você meu menino está no caminho, tenha fé, acredite, Deus guiara seus passos e eu estarei sempre ao seu lado.
– Acordei com o sol batendo em meu rosto, a fome e a sede vieram fazer companhia, mas meu destino era seguir sempre em frente, como o anjo havia me dito eu estava em busca do meu povo. Continuei caminhando e encontrei uma plantação de milho, peguei algumas espigas e segui comendo, não era uma refeição, mas ajudou a me manter forte, só precisava encontrar água e eu encontrei também, meu anjo estava comigo. Pelo visto ninguém se incomodou com a minha fuga, então voltei a caminhar pela estrada, depois de um certo tempo caminhando ouvi o barulho de uma algo que vinha pela estrada fiquei na duvida se devia ou não me esconder, resolvi esperar que se aproximasse e ela foi chegando, era uma velha carroça dirigida por um senhor puxada por dois cavalos, ao me ver parou e perguntou:
– Para onde está indo menino?
– Boa tarde senhor, estou em busca do meu povo, passaram por aqui a alguns dias e estou tentando alcançá-los.
– Então você é cigano menino?
– Pensei antes de responder, e se ele odiasse os ciganos? Mas alguma coisa me dizia para falar a verdade.
– Sou cigano senhor, com muita honra.
 O velho sorriu, uma gargalhada amistosa e falou;
– tão jovem e tão orgulhoso, continue assim menino. Vamos lá pode subir e se sentar aqui ao meu lado, seu destino é o meu, também estou indo encontrar o povo cigano, deu me algo para comer, água para matar minha sede e seguimos viagem.
Lourenço era o nome desta boa alma que agora estava me ajudando, comerciante do vilarejo próximo negociava com os ciganos a muito tempo, trocava mantimentos pelos artefatos que a nação cigana fazia, era muito estimado pelos ciganos e me disse durante a viagem que se pudesse escolher queria ter nascido cigano como eu.
– Já estamos chegando menino, logo ali adiante está o acampamento, você poderá encontrar seus amigos, tomar um banho, trocar essas roupas imundas.
– Fui obrigado a contar minha historia para esse novo amigo e ele ficou penalizado com o que eu havia passado.
– É meu amiguinho, você tão novo e já conheceu a maldade que existe no coração das pessoas, mas Deus é grande, prova disso é que estamos indo ao encontro da sua família.
Já dava para ver uma fumaça branca no horizonte, era o acampamento cigano, meu coração disparou, não sei explicar o que eu senti naquele momento, mas era bom. Finalmente adentramos no acampamento cigano, não sei como, mas me senti em casa, alguns homens vieram ao encontro da carroça cumprimentaram Lourenço e a mim, descemos da carroça e nos foi servido algo para beber, eu estava muito cansado.
Lourenço chamou um homem de lado e ficaram conversando por alguns minutos, em seguida este cigano veio até onde eu estava e disse:
– Venha comigo menino, vais tomar um banho, ganharás novas roupas, se tens fome vais comer e em seguida Lourenço te levará até o Pai Grande.
Fui levado até uma grande tenda, ali havia uma tina com água, outra vazia e Ramon esse era o nome do cigano pediu que eu tirasse água de uma e tomasse meu banho na outra.
– Não tenha pressa menino, vou providenciar roupas para você.
Enchi aquela tina com água fresca, tirei meus trapos e entrei, o contato com a água fria me trouxe ao encontro deste novo mundo que se abria para mim, agradeci a Deus e ao meu anjo por estarem me ajudando, fiz uma oração silenciosa.
– Pronto menino? Vista essas roupas, devem te servir, são do meu filho e ele tem quase o mesmo tamanho.
Agradeci e me troquei, Ramon me esperava na entrada da tenda e fomos ao encontro do Pai Grande. Que coisa linda que era o acampamento, homens, mulheres, crianças todos fazendo alguma atividade olhavam para mim curiosos, mas ninguém disse nada. Entramos na tenda do chefe do grupo, aquele que todos chamavam de Pai grande, meu coração queria sair pela boca, o que será que ele ia falar?
– Seja bem vindo filho de Ramires, eu nunca perdi a esperança que um dia você ia entrar nesta tenda. Levantou-se e me ergueu como se eu fosse uma pena, deu-me o abraço mais carinhoso que eu recebi nesta vida, desta vez confesso que chorei, mas foi de alegria.
– Filho de Ramires? Quem Eu?
– Isso mesmo menino, Ramires foi o teu pai e Madalena tua mãe, eles não estão mais conosco, pelo menos em corpo, mas tenho certeza que em espírito devem estar radiantes pela tua chegada. Lourenço me contou a sua historia, depois você me dá mais detalhes, o importante é que chegou, está em sua casa, com o seu povo, com a sua família.
– Agradeci de coração, limpava o rosto, mas as lágrimas teimavam em cair.
– Chore menino, ainda hoje vou te contar muita tristeza e te ensinar que não somos vingativos, sabemos perdoar, mas não agora, venha conhecer seu povo. Lourenço aproveitou para se despedir do Pai Grande, já haviam descarregado a carroça de mantimentos e agora ela estava cheia de panelas, baldes, talheres de cobre, a troca já fora feita. Dei um abraço naquele novo amigo e ele desejou que eu fosse muito feliz.
O pai grande agradeceu ao comerciante e disse:
– De todas as mercadorias que trouxestes, essa é a mais valiosa e me abraçou novamente.
NAÍ LOVÊ ANÊ LUMIA THIÊ POTIRIÁS EK CHAU
( Não existe dinheiro no mundo que pague um filho). Siga em paz companheiro, até outro dia.
O pai me pegou pelo braço e fomos andando em direção ao centro do acampamento, logo éramos cercados por todos, esperavam ansiosos o que ele ia dizer.
– Sabem quem é esse menino?
Silencio absoluto, ninguém sabia quem eu era!
– Ele é o filho perdido de Ramires que voltou para casa.
Desta vez o silencio foi quebrado por um outro cigano:
– Como podes ter tanta certeza pai?
– Meu coração não se engana, mostre para eles menino.
– Meu Deus. Mostrar o que? A única coisa que tenho é o meu tesouro, será que é isto que devo mostrar? Então abri a camisa e tirei meu medalhão. A principio ninguém falou nada em seguida fizeram uma verdadeira festa ao ver o meu tesouro, os homens me abraçavam, as mulheres me deram beijos na face, as crianças batiam palmas e um cigano me abraçou dizendo:
– Seja bem vindo filho do meu irmão, era meu tio e eu tinha uma tia, vários primos e a família cigana comigo, nunca mais estaria sozinho.
Aquela noite ficamos até altas horas a beira da fogueira, todos queriam ouvir a minha historia e eu contava feliz, foi o Pai grande que me ajudou:
– Vamos deixar o menino descansar, amanhã vocês terão tempo para conversar.
Meu tio me levou até a sua tenda e disse a partir de hoje aquela é a sua cama, sempre esteve ali te esperando, fique com Deus, bom descanso.
– Obrigado
– Não me agradeça, o lugar sempre foi seu apenas guardei.
– Tio. Posso perguntar uma coisa?
– Claro menino tudo o que quiser.
– Como eram meus pais?
– Amanhã menino, amanhã você vai saber de tudo, por hora durma, descanse é o que mais precisas no momento.
Dormi como um anjo e por falar em anjo sonhei com o meu, desta vez não estava só eram dois e sorriam para mim, estavam tão felizes quanto eu estava.
No dia seguinte ninguém me acordou, deixaram que eu dormisse o tempo que fosse necessário para recuperar minhas forças, levantei e já estavam almoçando, meu tio indicou o lugar onde deveria fazer minhas necessidades, lavar o rosto e sentar ao lado de todos que sorriam com a minha chegada. Meu Deus, naquela toalha estendida no chão havia muita fartura nunca havia visto tanta comida, frutas, carne, pão e podia comer o que quisesse,
– Matou a fome vô.
– É verdade me senti um Rei. Pois muito bem, depois da refeição fui de encontro ao Pai grande que perguntou se eu estava descansado, alimentado e se eu queria mais alguma coisa. Respondi que tinha tudo que jamais havia sonhado. Ele sorriu e disse:
– Então vamos conversar.
– Vai me contar sobre meus pais?
– Vou menino, é uma historia tão triste quanto a sua.
– Pai. Posso perguntar algo antes?
– Sim menino, e pode parar o que eu estiver falando sempre que tiver duvidas, vamos lá pergunte.
– Qual o meu nome?
Ele sorriu mostrando os dentes de ouro iguais os que tenho agora.
– Você tem o nome do seu avô. Que Deus o tenha junto com seus pais, seu nome é Diego.
Que nome lindo, então, eu sou o cigano Diego.
– Isso mesmo cigano, tenha orgulho desse nome, ele acompanha sua família a varias gerações, mas vamos falar dos seus pais.
– vamos Pai Grande, estou ansioso.
– A muitos anos atrás, quase a sua idade, seu pai que era o líder desse grupo mais a sua mãe foram a um vilarejo próximo do lugar onde estava montado nosso acampamento em busca de mantimentos, levavam o pequeno Diego no colo, nessa época você tinha menos de um ano de idade, desta vez não iriam fazer trocas e sim comprar o que faltava no acampamento, portanto carregavam valores para a compra e desgraçadamente foram emboscados por malfeitores que andavam por aquelas bandas. Quando se passou um dia desde a sua saída e não voltaram alguns homens foram tentar encontrá-los e em plena estrada encontraram a carroça queimada, os corpos estavam a alguns metros e mostravam que eles lutaram pela vida e perderam
e você meu menino ninguém encontrou, muitas buscas foram realizadas e nada de encontrar o filho de Ramires, as autoridades pouco se preocuparam em encontrar os culpados, afinal quem havia morrido eram ciganos e o caso foi por eles esquecido, mas não para nós sempre te procuramos e como eu disse meu coração sabia que um dia você ia voltar e ele estava certo.
Lágrimas desciam pelo meu rosto e me lembrei do meu anjo, será que era minha mãe e aquele da noite anterior devia ser o meu pai, agora eu sabia que eles estavam felizes e ao lado de Deus.
– Agora meu filho, você deverá aprender nossos costumes, nossa língua, nosso amor pela liberdade, pela mãe
Natureza deverá conhecer nossas tradições e quando chegar minha hora é você quem vai guiar nosso povo, e pela sua experiência de vida será um grande líder, que Santa Sara ilumine o seu caminho.
– Linda historia de vida Pai. Disse um jovem cigano.
– É verdade, na vida temos que superar os obstáculos que surgem em nossa jornada, que minha vida sirva de exemplo para todos vocês, não desanimem.
Aprendam a viver com esta diferença, quer queiram ou não, nós os ciganos somos diferentes, somos especiais, somos mensageiros da paz e por onde vocês passarem deixem saudades,façam com que a nossa musica continue ecoando durante muito tempo depois da nossa partida e que Santa Sara continue iluminando todos vocês.
Vamos dormir que amanhã é um novo dia.
FIM

O ARCO-ÍRIS

O ARCO-ÍRIS

Em tempos distantes, quando os ciganos eram perseguidos e massacrados por povos bárbaros, viviam desesperados e sem perspectivas, pois não tinham como se defender de tão acirrada perseguição. Os ciganos são pacíficos e não guerreiam. No lugar de armas portam seus violinos. No lugar de guerras, cantam suas canções e alegrias. No lugar de destruição, trazem a beleza de suas danças. No lugar de morte, os seus corações pulsam com a alegria de viver e de ser livre. E em lugar da fome, a mesa farta distribuída para todos.
Difícil para esse povo ter que agredir ou mesmo matar para se defender.
Assim, buscavam sempre bater em retirada, procurando a tão almejada paz, sem que para isso tivessem que recorrer a guerra.
Foi quando uma cigana vendo o arco íris, pediu com toda a força de sua alma, desejosa de salvar os poucos que restavam de seu clã e o filho que esperava em seu ventre, dizendo:

- Deus do arco-íris, tu que atravessais os céus ligando à terra de uma extremidade a outra, eu a cigana te evoco e te imploro, nos salve e nos mostre a terra da paz.

E, se jogando ao chão, chorou copiosamente. A cigana no fundo de sua alma esperava receber uma resposta quando percebeu que as cores do arco íris começavam a brilhar cada vez mais intensamente, alternando-se com rapidez. Era como se fossem as cordas de um instrumento musical. E sons melodiosos começaram. Sua alma então se aquietou, uma imensa paz a invadiu, quando inesperadamente ouviu uma voz dizendo:

- Cigana, a sina de seu povo será se espalhar pelo mundo todo, povoar as terras mais distantes, representando-me em sua beleza. O céu será seu teto. A terra seu palco e seu lar. Eu ofuscarei a visão dos seus perseguidores para seu povo partir em segurança, mas o filho que você carrega em seu ventre ficará comigo.

Neste instante a cigana então segurou seu ventre com as mãos e gritou:

- Não, não me peça o meu maior tesouro, ó Deus do arco-íris, eu te peço não tire a vida do meu filho!

Novamente então seguiu dizendo a voz do alto:

- Cigana, se aquiete, seu filho não perderá a vida. Como um tesouro ele será guardado por mim. Ele fará com que minhas cores ganhem vida em suas vidas. Suas mãos estarão eternamente suprindo todas as suas gerações com moedas de ouro, pois a ele será dado o pote encantado. Em minhas cores, que vocês passarão a usar, estará o encantamento e a magia. Seu filho encantado continuará para sempre animando as cores em suas almas e espíritos. Com o verde levarão a esperança e a fartura. Com o vermelho, a vida, o entusiasmo e o vigor. Com o amarelo, a realeza e a riqueza. Com o azul levarão a serenidade e a intuição. Com o laranja, a energia, a vitalidade e a emotividade. Com o violeta levarão a transmutação e perseverança. Com o rosa, o amor, a beleza, a moralidade e a música.

E então, como num passe de mágica, a cigana viu seu filho flutuando em direção ao arco íris. Ele ficou envolto por suas cores cintilantes, formando-se em sua cabecinha cachinhos de cabelos dourados, que caíram em forma de moedas de ouro.
Desde então, os ciganos se dispersaram pelo mundo. Levando o encanto de suas roupas coloridas e a atração pelo ouro. Conhecendo em suas almas e no relato de seus antepassados que o colorido de suas roupas na realidade é o colorido de suas vidas que eles tanto amam. E que o brilho do ouro é o brilho do tesouro mais valioso que é o Dom de viver. No final do arco-íris existe um pote de ouro inesgotável para trazer sorte, dinheiro e felicidade. Para perpetuar a união e o amor pela vida e a liberdade que são os maiores tesouros.

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA